terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Reflexão acerca dos desafios da formação do sujeito leitor na sociedade contemporânea

 

Desde os primórdios da história a escrita apresentou-se imbuída de uma função social especifica, cujo desenvolvimento é caracterizado em três fases distintas: pictórica, ideográfica e alfabética (CAGLIAR 2004). Diante da necessidade de registrar informações, o homem foi desenvolvendo por meio de tecnologias de cada realidade, de cada época, um sistema de escrita. O primeiro com desenhos nas paredes das cavernas. Na fase ideográfica, os registros passaram a ser mais elaborados e no decorrer do tempo a escrita foi sofrendo transformações e perdendo a forma ideográfica, originando então a escrita alfabética.

Segundo Bernardes, Cunha e Vieira (2003), em cada uma dessas fases a escrita resultou em mudanças significativas nas práticas socioculturais. Na cultura oral, o homem construía o conhecimento na coletividade, mediado pela interação e troca de experiências entres os pares. Com o advento da escrita, o discurso foi tornando-se mais dependente de uma gramatica, pois as palavras antes pronunciadas e ouvidas passaram a ser escritas e vistas como símbolos a serem decodificados pelo leito, de forma que o som acabou reduzindo-se ao registro escrito.

De acordo com Dias (1999), os primeiros registros escritos no papiro datam-se por volta de 3000 a.C., sendo a função social da escrita naquela época direcionada ao desenvolvimento da agricultura, da contabilidade e do inventario dos templos e, mais tarde, acrescentou-se a função da organização dos impostos. A partir de 1700 a.C., surgem outras tecnologias como suporte da escrita, dentre elas a argila, a cerâmica e as peles de animais, além da permanência do papiro. No século III a.C., com a criação da Biblioteca do Museu de Alexandria, surgiu o pergaminho como outra opção de suporte e o livro como reunião de vários pergaminhos ou papiros.

O papel, como é conhecido hoje, é introduzido no mundo ocidental em meados do século XII e difundido na Europa a partir do século XIII, cuja produção em maior escala se deu no século XV, com o advento da invenção da imprensa e da tipografia, por Gutenberg. Segundo Chartier, a invenção da imprensa não resultou em transformações significativas na forma de organização do livro, visto que “um livro manuscrito (sobretudo nos seus últimos séculos, XIV e XV) e um livro pós-Gutenberg baseiam-se nas mesmas estruturas fundamentais, as do códex2.” (CHARTIER, 1998, p. 7-9). No decorrer da história da escrita é possível notar duas grandes revoluções: a criação da impressa e o advento do computador.

            Levando em consideração que na educação o foco, além de ensinar, é ajudar a integrar ensino e vida, conhecimento e ética, reflexão e ação, a ter uma visão de totalidade. As grandes transformações que vêm ocorrendo em consequência do processo de globalização, dos constantes avanços tecnológicos marcantes no último século e o crescente aumento de utilização das novas ferramentas tecnológicas, a vida social tem exigido dos sujeitos aprendizagem de comportamentos e raciocínios específicos. 

Essas exigências têm implicado diretamente no processo de ensino-aprendizagem, levando estudiosos a refletirem cada vez mais sobre a perspectiva ideológica dessas novas práticas sociais e o uso da linguagem no mundo atual. A nova tecnologia além de modificar o modo de estar na sociedade trouxe também novas linguagens, especialmente a linguagem escrita. Provocando um desequilíbrio nas antigas práticas educativas.

Os alunos de hoje não são os mesmos para os quais o nosso sistema educacional foi criado. Os alunos de hoje não mudaram apenas em termos de avanço em relação aos do passado, nem simplesmente mudaram suas gírias, roupas, enfeites corporais, ou estilos, como aconteceu entre as gerações anteriores (PRESNKY, 2001).

Representam as primeiras gerações que cresceram com esta nova tecnologia. Em média, um aluno graduado atual passou menos de 5.000 horas de sua vida lendo, mas acima de 10.000 horas jogando vídeo games (sem contar as 20.000 horas assistindo à televisão) Prensky (2001) denomina essa geração de nativos digitais (PRESNKY, 2001). 

Os nativos digitais parecem aprender pela prática e experimentação. Para as novas gerações a aprendizagem parece ser fruto da interação, cooperação e exploração. Prensky (2010) destaca que a educação do século XXI precisa pensar em vários aspectos para atender as demandas que emergem, mas que o fundamental, do seu ponto de vista, é a pedagogia como iremos ensinar nossas crianças (Apud SCHONS; VALENTINI, 2012).

Novas formas de ler e escrever passaram a ser inseridas no cotidiano das pessoas. Mais especificamente os computadores, ganharam um espaço de destaque nesse novo cenário, buscando promover a inclusão digital e inserir a escola em uma cultura digital (SCHONS; VALENTINI, 2012). É, portanto um desafio para os educadores atuais, que ao mesmo tempo em que precisam habilitar seus alunos iletrados, em seu sentido estrito, precisam dominar diferentes praticas diante dessas novas formas de comunicação e informação.

            A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional LDB, 1996, preconiza a inclusão digital no processo educacional como uma necessidade da alfabetização digital em todos os níveis de ensino, do fundamental ao superior. Porém ainda existem muitas escolas sem acesso à internet, muitos professores que ainda não sabem sequer acessa-la ou que se recusam a utiliza-la em suas aulas, sendo detectada com isso, a exclusão digital. As políticas de inclusão digital devem permitir a inserção de todos na sociedade da informação. O plano nacional de educação – PNE menciona o uso de tecnologias e conteúdos de multimídias na educação e ressalta o importante papel da escola como ambiente de inclusão digital, numa sociedade ancorada no transito da informação, por meio de tecnologias de comunicação e informação.
 
 
Referência:
A LEITURA E A ESCRITA NO HIPERTEXTO DIGITAL COMO PRÁTICAS SOCIAIS: REFLEXÕES A PARTIR DA PERSPECTIVA DO LETRAMENTO, de Lenir de Jesus Barcelos Coelho.