Reflexão acerca dos desafios da formação do sujeito leitor na sociedade contemporânea
Desde os primórdios da história a escrita apresentou-se imbuída de uma
função social especifica, cujo desenvolvimento é caracterizado em três fases
distintas: pictórica, ideográfica e alfabética (CAGLIAR 2004). Diante da
necessidade de registrar informações, o homem foi desenvolvendo por meio de
tecnologias de cada realidade, de cada época, um sistema de escrita. O primeiro
com desenhos nas paredes das cavernas. Na fase ideográfica, os registros
passaram a ser mais elaborados e no decorrer do tempo a escrita foi sofrendo
transformações e perdendo a forma ideográfica, originando então a escrita
alfabética.
Segundo Bernardes, Cunha e Vieira (2003), em cada uma dessas fases a
escrita resultou em mudanças significativas nas práticas socioculturais. Na
cultura oral, o homem construía o conhecimento na coletividade, mediado pela
interação e troca de experiências entres os pares. Com o advento da escrita, o
discurso foi tornando-se mais dependente de uma gramatica, pois as palavras
antes pronunciadas e ouvidas passaram a ser escritas e vistas como símbolos a
serem decodificados pelo leito, de forma que o som acabou reduzindo-se ao
registro escrito.
De acordo com Dias (1999), os primeiros registros escritos no papiro
datam-se por volta de 3000 a.C., sendo a função social da escrita naquela época
direcionada ao desenvolvimento da agricultura, da contabilidade e do inventario
dos templos e, mais tarde, acrescentou-se a função da organização dos impostos.
A partir de 1700 a.C., surgem outras tecnologias como suporte da escrita,
dentre elas a argila, a cerâmica e as peles de animais, além da permanência do papiro.
No século III a.C., com a criação da Biblioteca do Museu de Alexandria, surgiu
o pergaminho como outra opção de suporte e o livro como reunião de vários
pergaminhos ou papiros.
O papel, como é conhecido hoje, é introduzido no mundo ocidental em meados
do século XII e difundido na Europa a partir do século XIII, cuja produção em
maior escala se deu no século XV, com o advento da invenção da imprensa e da tipografia,
por Gutenberg. Segundo Chartier, a invenção da imprensa não resultou em
transformações significativas na forma de organização do livro, visto que “um
livro manuscrito (sobretudo nos seus últimos séculos, XIV e XV) e um livro
pós-Gutenberg baseiam-se nas mesmas estruturas fundamentais, as do códex2.”
(CHARTIER, 1998, p. 7-9). No decorrer da história da escrita é possível notar
duas grandes revoluções: a criação da impressa e o advento do computador.
Levando em consideração que na
educação o foco, além de ensinar, é ajudar a integrar ensino e vida,
conhecimento e ética, reflexão e ação, a ter uma visão de totalidade. As
grandes transformações que vêm ocorrendo em consequência do processo de
globalização, dos constantes avanços tecnológicos marcantes no último século e
o crescente aumento de utilização das novas ferramentas tecnológicas, a vida
social tem exigido dos sujeitos aprendizagem de comportamentos e raciocínios
específicos.
Essas exigências têm implicado diretamente no processo de
ensino-aprendizagem, levando estudiosos a refletirem cada vez mais sobre a
perspectiva ideológica dessas novas práticas sociais e o uso da linguagem no
mundo atual. A nova tecnologia além de modificar o modo de estar na sociedade
trouxe também novas linguagens, especialmente a linguagem escrita. Provocando
um desequilíbrio nas antigas práticas educativas.
Os alunos de hoje não são os mesmos para os quais o nosso sistema
educacional foi criado. Os alunos de hoje não mudaram apenas em termos de
avanço em relação aos do passado, nem simplesmente mudaram suas gírias, roupas,
enfeites corporais, ou estilos, como aconteceu entre as gerações anteriores
(PRESNKY, 2001).
Representam as primeiras gerações que cresceram com esta nova tecnologia.
Em média, um aluno graduado atual passou menos de 5.000 horas de sua vida
lendo, mas acima de 10.000 horas jogando vídeo games (sem contar as 20.000
horas assistindo à televisão) Prensky (2001) denomina essa geração de nativos
digitais (PRESNKY, 2001).
Os nativos digitais parecem aprender pela prática e experimentação. Para
as novas gerações a aprendizagem parece ser fruto da interação, cooperação e
exploração. Prensky (2010) destaca que a educação do século XXI precisa pensar
em vários aspectos para atender as demandas que emergem, mas que o fundamental,
do seu ponto de vista, é a pedagogia como iremos ensinar nossas crianças (Apud
SCHONS; VALENTINI, 2012).
Novas formas de ler e escrever passaram a ser inseridas no cotidiano das
pessoas. Mais especificamente os computadores, ganharam um espaço de destaque
nesse novo cenário, buscando promover a inclusão digital e inserir a escola em
uma cultura digital (SCHONS; VALENTINI, 2012). É, portanto um desafio para os
educadores atuais, que ao mesmo tempo em que precisam habilitar seus alunos
iletrados, em seu sentido estrito, precisam dominar diferentes praticas diante
dessas novas formas de comunicação e informação.
A Lei de Diretrizes e Bases da
Educação Nacional LDB, 1996, preconiza a inclusão digital no processo
educacional como uma necessidade da alfabetização digital em todos os níveis de
ensino, do fundamental ao superior. Porém ainda existem muitas escolas sem
acesso à internet, muitos professores que ainda não sabem sequer acessa-la ou
que se recusam a utiliza-la em suas aulas, sendo detectada com isso, a exclusão
digital. As políticas de inclusão digital devem permitir a inserção de todos na
sociedade da informação. O plano nacional de educação – PNE menciona o uso de
tecnologias e conteúdos de multimídias na educação e ressalta o importante
papel da escola como ambiente de inclusão digital, numa sociedade ancorada no
transito da informação, por meio de tecnologias de comunicação e informação.
Referência:
A LEITURA E A ESCRITA NO HIPERTEXTO DIGITAL COMO PRÁTICAS SOCIAIS: REFLEXÕES A PARTIR DA PERSPECTIVA DO LETRAMENTO, de Lenir de Jesus Barcelos Coelho.
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